Mostrando postagens com marcador gnosticismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gnosticismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Miragem

Compartilhando um dos textos mais bonitos que já li... 

Aprendizado condensado em forma de luz

Amor...

"Miragem" - Verônica ab Thule 


"Um dia um raio de luz solitário foi ao Pólo Norte. 

-Você gostaria de participar do balé de hoje? – perguntou Boreal. 

O raio de luz girou sobre si mesmo aumentando o comprimento de sua freqüência de onda até que se tornou 
vermelho-púrpura, sinalizando para a noite que não  desejava participar. 

- Existe algo então que eu possa fazer por você? – completou ela, fazendo jus à sua fama universal de grande anfitriã. 

O raio de luz começou a conversar com ela, aumentando e reduzindo o comprimento de sua onda, transmitindo o teor de seu pensamento na bela linguagem de cores que a Noite Ártica sabia entender.  

A linguagem dos raios de luz era uma das mais belas dentre todas as formas de comunicação somente comparando-se em encantamento à dança dos Elfos. 

O raio de luz disse-lhe que viera apenas assistir ao espetáculo pois estava cansado. Chamava-se Miragem.  

- Do que é que você está cansado? – perguntou Boreal. 

E Miragem contou-lhe a sua história. 

Um dia eu passeava pela Terra subindo e descendo reluzindo pelo ar, acompanhando um grupo de raios novos. Acabávamos de chegar do Sol, quando para nosso espanto vimos descer dos céus um belo ser.  

Ele vinha em sua casa flutuante. Todos nós ficamos muito curiosos porque éramos jovens e ainda não conhecíamos muitos seres. Chegamos perto para observá-lo e à sua casa e nos divertimos a valer refletindo-nos em sua habitação de brilho sutil e translúcido. Ao cair da noite meus amigos cansaram-se da novidade e se foram, e outros vieram para se fundir às luzes que a habitação fazia. Eu fiquei. Fiquei até de madrugada. 

A noite não me apraz mas... ah, desculpe-me – o raio de luz corou constrangido ao lembrar-se de que estava falando com uma Noite – quero dizer, eu não conhecia nada naqueles tempos... 

- Não se preocupe, não estou ofendida – disse a Noite Boreal – Mas o que era esse ser? Bem, como eu disse era madrugada, quando vi o ser sair de sua casa e andar pela planície sem nenhum receio. Eu o segui.  

- Porque você não partiu com os seus amigos? – O visitante dos céus me perguntou. Qual não foi a minha surpresa quando ele falou comigo! 

Você sabe, poucos seres conhecem a nossa linguagem.

- Estou curioso a seu respeito – eu respondi – onde aprendeu a falar a língua dos raios de luz? 

- Sou um Elfo – ele disse – conheço as linguagens de todos os seres. 

Então conversamos por muitos dias, até que eu falei que desejava amá-lo. 

- Podemos amar um ao outro – disse o Elfo – mas você é jovem, e precisa saber que o amor é incerto.

Precisa saber construir-se mais denso com o que recebe de um amor, e não perder-se quando este se vai, pois um Elfo não tem parada e a minha natureza vai fatalmente me levar para longe de você, e você é um Raio de Luz e precisa ainda conhecer todo o Universo, e a sua natureza também vai te carregar para longe de mim. 

Eu pensei que tinha compreendido aquilo, e amei o Elfo. 

Então ele se transformou em luz e viajamos pelo espaço de mãos dadas, e ele me ensinou a fazer espelhos no mundo dos homens, entrando nos meios certos e reduzindo a velocidade. Esses meios faziam em nós uma curva que nos fazia vibrar todo o corpo e nos jogava um contra o outro, o que quase nos fundia. 

Batíamos então na matéria escolhida e ricocheteávamos, deixando atrás de nós o espelho onde antes nada havia.  

Um dia o Elfo foi embora. 

- Vou me juntar aos homens – ele disse – é meu tempo de estar entre eles. Quando eu estiver lá vou vê-lo mas não vou me lembrar de você. Se isso acontecer saiba me perdoar. Seu amor me tornou melhor, espero que o meu tenha feito o mesmo por você.  

Então fizemos uma grande viagem juntos em torno do planeta, e terminamos o nosso passeio fazendo um grande espelho na Finlândia, e foi a primeira vez que ouvi os homens nos chamando de miragem. Adotei esse nome para lembrar-me desse dia. 

- E o que aconteceu depois?  O amor dele me deixou mais brilhante e mais denso, mas mesmo tendo sido avisado, senti falta do Elfo. 

Sei que ele não se lembra de mim, porém vou lembrarme dele para sempre. 

Então faço espelhos pelo mundo, em todos os cantos, o tempo todo. 

Corro o mundo fazendo espelhos, e todos os homens me chamam de miragem em todas as suas línguas. 

- E porque você faz isso? 

Sei que os homens sofrem, e sei que o Elfo está entre eles. Então faço as miragens pelo mundo, as mais belas que posso, pois quem sabe um dia o meu Elfo esteja olhando para uma delas, e o espelho que lhe dou de presente possa lhe fazer feliz por um instante ou aliviar o seu coração se ele estiver pesado. 

E quem sabe lá no fundo ele possa se lembrar de mim, e do mundo como é aqui fora, e então assim ele saberá que o seu tempo com os homens logo passa. 

A Noite ficou comovida. 

- Entendo você – disse ela, pensando de uma forma que já não fazia há muito tempo em seu amor perdido."

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre o tempo e a eternidade...

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental.Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveriaser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender.Percebi que nada sabia.Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma.Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.E logo me assustei.Nietzsche ficou louco.Fernando Pessoa era dado à bebida.Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia.Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.Maiakoviski suicidou-se.Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental?Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.Pensar é uma coisa muito perigosa...Não, saúde mental elas não tinham...Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa.Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio".Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também.Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou.Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos eles podem vir de poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, pastores, amigos e até mesmo psicanalistas... Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco?Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado.Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou...Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias.Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.A beleza é perigosa para o hardware.Cuidado com a música...Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados.Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram..."

Rubem Alves.Sobre o tempo e a eternidade.Campinas: Ed. Papirus, 1996

------------------------------------------------------------------------------------

Esse texto é um achado, exprime muito do que penso e sinto. E embora uma vida pensante não seja sinônimo de uma vida tranquila, ou como diz Andre Comte em seu belíssimo livro "O Amor a Solidão": embora a lucidez não anule nossa dor; ela é um caminho (ou tem sido o único caminho de Comte,o meu, o de tantos filósofos, músicos, escritores ) para amarmos a vida em sua plenitude, onde possamos então abandonar a razão (ou a verdade, ou a filosofia, ou a "balsa" com a qual atravessamos o rio).

Além da filosofia, o trecho diz muito sobre o esoterismo e a psicologia também. A "noite negra da alma", ou a "morte e ressureição", ou quantas metáforas quiserem usar para dizer o que os orientais dizem há tempos: da necessidade de nos libertar das fúteis esperanças que geralmente nutrimos, as esperanças exteriores. A esperança de um certo reconhecimento. Esperanças do ego. Há 3 possibilidades:
-Ou as aceitamos e somos os homens de gravata,
-ou as negamos parcialmente e corremos o risco de cair na bebida, ter depressão ou cortar a própria orelha,
-ou negamos até o fim, matamos o ego, destruimos a balsa, ou a ponte, e essa sim me parece uma vida plena, no amor pleno.

Para encerrar, duas frases de Maharishi:

"O jogo da vida se processa no interior, o conhecimento da vida é adquirido no interior: A ação da vida é executada no interior"
"A flor apenas desbrocha. Ela não precisa estar ciente da alegria que proporciona a todo o jardim"


Thiago Mori